sábado, 8 de agosto de 2015

Demissões na agricultura preocupam produtores rurais de Petrolina, PE

Ministério da Integração disse que a suspensão dos serviços é temporária. 2.220 produtores do Vale do São Francisco estão preocupados.


O Governo federal suspendeu o contrato dos Assistentes Técnicos e Agrônomos do Projeto de Irrigação Senador Nilo Coelho, em Petrolina, no Sertão de Pernambuco.  A medida preocupou os produtores rurais que não podem mais contar com a ajudar desses profissionais. A justificativa para essas demissões, foi a contenção de gastos.
Dos cinco hectares plantados com coco, na propriedade do produtor rural Natalício Luiz de Sá, quatro foram infestados pelo ácaro do coqueiro. Os frutos estão apodrecendo ainda no pé e não param de cair. “Nós não temos conhecimento do que aplicar, então a gente fica com a área comprometida, caindo a produção. Quando cai a produção, falta tudo para a gente”, explica o produtor.
O trabalho do controle de pragas era feito por Assistentes Técnicos que prestavam serviços ao Ministério da Integração Nacional e que atendiam os produtores de frutas de áreas irrigadas da região. Mas, recentemente, os contratos desses assistentes foram suspensos.
Ao todo eram 11 agrônomos, três assistentes sociais e 24 técnicos agrícolas. Os serviços prestados por esses profissionais foram garantidos aos agricultores de áreas de irrigação, através de uma Lei Federal de 2010.
O contrato foi assinado em 17 de outubro de 2013, por meio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), instituição ligada ao Ministério da Irrigação. A medida deveria valer por cinco anos, mas a suspensão ocorreu três anos antes do vencimento.
Entre as atribuições dos técnicos estavam a orientação do uso de água, adubos, agrotóxicos, planejamento de produção, colheita, venda da mercadoria e emissão de laudos para financiamento bancário e de certificados que liberam a exportação das frutas. Com as demissões, todos os serviços foram paralisados.
As consequências das demissões podem ser graves no Vale do São Francisco, de onde sai a maior parte das uvas e mangas exportadas. É também em Petrolina que fica o Distrito de Irrigação Senador Nilo Coelho, o maior projeto rural público em operação no país. Agora, 2.220 produtores estão preocupados com o futuro.
O gerente executivo do Distrito de Irrigação Nilo Coelho, Paulo Sales, falou sobre as consequências negativas que a medida pode trazer. “Nós nos preocupamos ainda mais porque como existe a possibilidade de virmos a operar o sistema em condições de contingência, por conta do nível do reservatório de Sobradinho, a participação e o acompanhamento dos técnicos, da assistência técnica, é extremamente importante. E ainda existe a preocupação com a mosca da fruta, que era um trabalho que também estava sendo acompanhado pelos técnicos e que tem um impacto extremamente negativo, sobretudo quando você começa fazer a avaliação dos produtores que tem cultura para exportação”, explicou.
A falta de orientação profissional preocupa também a promotora de justiça do Meio Ambiente do Ministério Público de Pernambuco, Ana Rúbia Torres. “Nós podemos desarticular e perder toda produção orgânica que nós levamos quase uma década para construir. O meio ambiente perde, porque vai ficar mais intoxicado, com o nível de agrotóxico, porque nós somos o segundo pólo consumidor de agrotóxico do estado e o Brasil é o maior consumidor de agrotóxico do planeta. Então o que a gente perde é a saúde no Vale do São Francisco”, argumenta.
Em nota, o Ministério da Integração nacional disse que a suspensão dos serviços é temporária e que ainda está buscando parcerias para atender a demanda dos perímetros públicos irrigados. Mas não foi informada nenhuma previsão de retorno dos profissionais.
Fonte: http://g1.globo.com/pe/petrolina-regiao/noticia/2015/08/demissoes-na-agricultura-preocupam-produtores-rurais-de-petrolina-pe.html

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Carrancas do São Francisco


Os dicionários de língua portuguesa definem a palavra carranca, como sendo figura sombria, de cara feia e disforme, indicativo de mau humor.

Segundo os historiadores, as barcas que circulavam pelo rio São Francisco foram as únicas embarcações primitivas de povos ocidentais que usaram figuras de proa ou carrancas.

Essas esculturas surgiram na cultura nordestina, mais propriamente no meio da civilização ribeirinha do Médio São Francisco por volta de 1875/1880 e durou até o ano de 1940, quando se encerrou o ciclo das embarcações no Brasil.

Essas figuras ocupam lugar de destaque na arte popular nordestina, pela expressividade artística e pela originalidade tipicamente brasileira.

Existem muitas versões históricas sobre o aparecimento das carrancas, na região nordestina. Porém a tese decorrente de estudos antropológicos, que possui maior probabilidade, é a que defende o aspecto lendário das carrancas, que segundo a crença e o misticismo do povo primitivo que habitava aquela região, as carrancas serviam de amuletos de proteção e salvaguardavam os barqueiros, viajantes e moradores contra as tempestades, perigos e maus presságios.

Serviam também para espantar os animais e os duendes moradores do rio São Francisco que de noite saiam das profundezas das águas para assombrar barqueiros, tentar mulheres e roubar crianças. Esses seres ao verem as figuras das carrancas nas proas, de olhos esbugalhados, de bocas enormes escancaradas e agressivas, se espantavam e se recolhiam aos seus esconderijos.

A forte tendência à submissão e à crença no poder sobrenatural das carrancas é explicado a partir do primitivismo e ingenuidade dos habitantes, que eram povos extremamente supersticiosos e acreditavam em várias lendas.

Quanto ao aspecto econômico pode-se dizer que o surgimento dessas figuras horripilantes de aspecto grosseiro, talhadas em madeira, tenha sido um dos mais relevantes motivos para a emancipação comercial, política e social da região do Médio São Francisco.

A característica plástica predominante em todas as carrancas, corresponde ao fato delas apresentarem fisionomias de animais, cabeças de humanos e vice-versa. E o traço mais marcante dessas figuras são as vastas cabeleiras e os olhos de humanos que elas possuem.

Cabe aos artesãos nordestinos da região do Médio São Francisco, o mérito pela criação de uma imaginária popular, de aspecto mítico e decorativo, baseada na cultura regional, porém com fortes influências da arte peninsular da Idade Média.

Com o declínio do ciclo das barcas no Brasil, em 1940, essas esculturas artesanais deixaram de ser figuras de proa e passaram a ser objetos de arte popular presentes nos museus, exposições, feiras artesanais e coleções.

Um dos principais e mais famosos artesãos do ciclo das barcas foi o escultor Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, que durante toda sua trajetória, semeou e difundiu seus dotes artísticos com o povo de sua região. Hoje é grande o número de artesãos espalhados pelos sertões do Nordeste do Brasil.

Devido à grande procura e aceitação, o comércio das carrancas expandiu-se muito, tornando-se uma atividade alternativa para os carranqueiros do Nordeste.

Fazer carrancas além de ser uma expressão significativa da arte popular, é uma atividade rentável para o artesão.

Fonte: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=575:carrancas-do-sao-francisco&catid=38:letra-c&Itemid=182

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Gestores de cidades do Semiárido estarão no G20 em Petrolina, PE

Uma reunião prévia com secretários será realizada no dia 14 de agosto. G20 vai acontecer nos dias 22 e 23 de outubro no Senai em Petrolina.


Para discutir as cadeias produtivas, municípios do Semiárido nordestino estarão reunidos nos dias 22 e 23 de outubro no G20 em Petrolina, no Sertão de Pernambuco. A ideia é que  secretários de planejamento, gestores e representantes de centros de pesquisa, universidades e órgãos e atores sociais do país definam políticas públicas para implementar instrumentos para potencializar as riquezas e atrativos de cada cidade.
Além da anfitriã que é Petrolina, foram convocados os municípios pernambucanos: Caruaru, Garanhuns e Santa Cruz do Capibaribe; Da Bahia: Feira de Santana, Jequié, Juazeiro, Paulo Afonso e Vitória da Conquista. Do estado do Ceará: Caucaia, Crato, Iguatu, Itapipoca, Juazeiro do Norte, Maranguape e Sobral; Da Paraíba: Patos e Campina Grande; Do Rio Grande do Norte: Mossoró e de Alagoas, a cidade de Arapiraca.
De acordo com o coordenador técnico do G20 e secretário de Planejamento, Orçamento e Gestão de Petrolina, Geraldo Júnior, as cidades participantes são as vinte mais fortes do Semiárido. Os municípios somam um Produto Bruto Interno (PIB) de R$ 50 milhões e uma população com média de 400 mil habitantes. “Temos analisado ao longo desses 20 anos que existe uma maior concentração nos investimentos das cadeias produtivas e financiamentos federais para a faixa litorânea do Nordeste, principalmente no que se refere às grandes obras de infraestrutura. Isso tem ampliado as desigualdades entre as próprias cidades da região”, explica.
Ainda segundo Geraldo, cada cidade tem uma dinâmica forte e estas áreas precisam ser potencializadas. “Petrolina tem a fruticultura e Mossoró, o petróleo e gás. Enquanto que Juazeiro do Norte, Caruaru e Toritama são ícones no segmento de confecções. Então o G20 quer que aconteça ampliação dessas cadeias produtivas e a diminuição da desigualdade dentro do Nordeste”, argumenta.
No dia 14 de agosto será realizada uma reunião no Sest/Senat em Petrolina com os secretários de planejamento das cidades do G20. Este é um encontro preparatório, onde vão ser apresentados e definidos os objetivos e metas a curto, médio e longo prazo. Já nos dias 22 e 23 de outubro, vai acontecer o encontro do G20, no auditório do Senai. Será aberto ao público e participarão gestores, especialistas e representantes de instituições de todo o país.

domingo, 2 de agosto de 2015

Desmatamento e poluição deixam leito do Rio São Francisco assoreado

Do Alto São Francisco, em Minas, ao nordeste, passando por Sobradinho, efeito do desmatamento e da poluição é visível no leito assoreado, onde bancos de sujeira se multiplicam e a vida definha

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Fornos de carvão diante de uma das plantações de eucalipto na região da Bacia do Velho Chico: cerrado derrubado alimentou siderúrgicas e terrenos desmatados deram lugar a monoculturas e à criação de gado

     Abaeté, Barra (BA), Felixlândia, Paraopeba, Pompéu, São Gonçalo do Abaeté e Três Marias – A visão do Rio São Francisco se abrindo em águas escuras diante da proa do barco, até onde o olho alcança, é um alívio para o pescador Norberto dos Santos, de 65 anos. Minutos antes, ele percorria, com as narinas ardendo, as águas malcheirosas e turvas do Córrego Barreiro Grande, afluente do Velho Chico, para mostrar o lixo e o esgoto que descem sem tratamento pela correnteza, gerados pelos 30.600 habitantes da cidade de Três Marias. Como é um dos mais experientes navegadores da região, o pescador conhece atalhos no rio e pilota em uma área por onde despontam da água folhagens e aguapés. Em uma das manobras, porém, o barco para, em um tranco. Confuso, depois chateado, o pescador constata que o acúmulo de lixo, e sedimentos criou mais uma ilha de detritos no meio do curso d’água e fez a “voadeira” encalhar. Uma situação que se repete em diversos trechos, sobretudo no Alto Rio São Francisco, onde pesquisa inédita encomendada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) mostra que quase 60% da cobertura vegetal foi removida, permitindo que os sedimentos do solo desprotegido sejam levados pela chuva para dentro da calha.
     O assoreamento reduz ainda mais o volume de águas disponíveis para o rio como um todo e, de acordo com o comitê, teve impacto ainda maior com a redução dos reservatórios de Três Marias e Sobradinho (BA). No lago do interior da Bahia, o recuo de mais de 5 quilômetros das águas expôs as ruínas da antiga Remanso, inundada em 1974. Da cidade de que se despediram os compositores Sá e Guarabyra na música Sobradinho (“Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento-Sé, adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir”), ressurgiram no meio do sertão duas caixas d’água e estruturas de casas e edificações, denunciando a gravidade da estiagem. Em Três Marias, o aposentado Mahmud Lauar, de 80 anos, que se instalou às margens do lago no ano de sua criação, em 1958, diz nunca ter visto tão pouca água chegando à represa. “Os peixes estão acabando. Tem dias que só sobra para dar de comida à minha companheira de pescaria, esta garça, que chamo de Come Quieta”, afirma, indicando o pássaro.
     O pescador Norberto é um dos mais antigos da colônia de Três Marias e, por conhecer o São Francisco há 54 anos, transformou-se em um dos embaixadores do rio em congressos no exterior. Suas palavras mostram um drama vivido em várias partes do Velho Chico. “A culpa não é só da poluição. O desmatamento das barrancas, das matas ciliares e das florestas também vai acabar com o rio, porque a chuva traz esse sedimento todo para cá. O rio está ficando raso e cheio de bancos de sujeira, pneus e terra”, lamenta. De acordo com estudo da Nemus Consultoria, que atualiza o Plano de Recursos Hídricos do Velho Chico, 59% das áreas vegetais nativas do Alto São Francisco (da nascente até Três Marias) já foram devastadas. “O desmatamento (em toda a bacia) cresce a cada dia e está em mais de 47%, sendo que a região do Baixo São Francisco aparece como a área mais desmatada”, afirmou o mestre em geografia agrária Sílvio Machado, na apresentação dos dados.
     A impressão de Norberto, que muitos apelidaram carinhosamente de “Velho do Rio”, ganha amparo na visão de especialistas. “Boa parte do desmatamento se deveu ao ciclo do carvão. Cortaram-se as matas para se obter carvão para a produção de ferro-gusa nas siderúrgicas de Sete Lagoas e região. Hoje, o efeito disso é a abertura de espaços para a criação de gado e a expansão do eucalipto”, afirma o coordenador do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios (LGAR) do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Ricardo Mota Pinto Coelho. “O solo desprotegido, desmatado, desaba na beira do rio ou é levado pelas enxurradas para dentro do São Francisco. Assim ocorre o assoreamento”, reforça.
     CORTINA VERDE
 Para encontrar essas clareiras abertas na vegetação nativa é preciso conhecer as técnicas dos desmatadores. Observando as imagens de satélite com auxílio de especialistas, o Estado de Minas identificou vários pontos de corte. A tática consiste em abrir uma trilha mata adentro e iniciar a derrubada de árvores sempre deixando uma camada externa de vegetação, para dificultar que a fiscalização encontre o desmatamento.
     Protegido por esse tipo de cortina verde, a equipe do EM encontrou um grande ponto de corte de espécimes nativas no município de Paraopeba, no Alto São Francisco, a apenas 10 quilômetros da BR-040 (BH–Brasília). Depois de passar por uma sequência de fazendas e roças, chega-se ao local, uma clareira de 6 hectares – equivalente a seis campos de futebol – aberta para servir de pastagem ao gado depois que a madeira foi removida. De acordo com os trabalhadores rurais que pastoreavam no local, o cerrado derrubado virou carvão há dois anos. A passagem para a clareira é por um represamento feito em um córrego. As águas do manancial recebem todos os sedimentos carreados pelas chuvas na área descoberta de mata, chegando inevitavelmente à Bacia do Rio São Francisco.
     A devastação é observada em vários outros pontos ao longo da bacia, como em Abaeté, Pompéu, São Gonçalo do Abaeté e Felixlândia, mas também no Médio São Francisco, entre Minas e a Bahia. “Com o desmoronamento das barrancas, percebemos que o rio se torna mais largo e menos profundo. Seria necessário um programa extenso de reflorestamento, que deveria ocorrer dentro do programa de revitalização do Rio São Francisco, que o governo federal praticamente abandonou”, afirma o bispo de Barra, na Bahia, frei Luiz Cappio. No próprio município baiano, essa devastação é nítida. Tanto que, no antigo porto para as balsas que são a única forma de travessia para carros na região, o desmoronamento destruiu as rampas de concreto e ameaça as linhas de transmissão de energia elétrica.


Córrego Barreiro Grande carrega o esgoto dos 30 mil habitantes de Três Marias até o leito do Velho Chico

Verba para a revitalização do São Francisco é insuficiente e só parte dela foi liberada

Minas, que produz 70% da água da bacia, é o estado que mais demanda recuperação. Enquanto isso, assoreamento engole trechos inteiros do rio e mancha de algas tóxicas se estende por 28 quilômetros do leito

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Assessoria de Imprensa do Comite de Bacia do Rio Sao Francisco/Divulgacao
Nas proximidades da hidrelétrica de Xingó (AL), recuo da água deixou um tapete escuro de algas, as mesmas que contaminam o leito

     Cabrobó (PE), Salgueiro (PE), Barra (BA), Casa Nova (BA), Abaeté, Pompeu, São Gonçalo do Abaeté e Três Marias – A revolta do bispo de Barra, frei dom Luiz Cappio, com a falta de recuperação do Rio São Francisco antes da obras de transposição se apoia em um quadro sombrio. Não apenas a revitalização deixou de ser implantada nas cabeceiras, que concentram 70% da água da bacia, em terras mineiras, como o Velho Chico hoje morre de sede em locais antes inimagináveis. A seca que sobe o curso se alastrou pelas maiores represas da bacia – Três Marias e Sobradinho (BA) –, prejudicando a pesca, a piscicultura e quebrando as safras. O assoreamento soterrou tantos trechos do leito que há pontos em que não se atravessa mais de barco. Entre as represas de Paulo Afonso (BA) e Xingó (AL), os baixos níveis de água associados à poluição e à manobras nas hidrelétricas propiciaram o aparecimento de uma mancha de algas tóxicas com 28 quilômetros de extensão e sete metros de profundidade, que deixou sem abastecimento as torneiras de oito municípios do sertão alagoano.
     A promessa de despoluição e revitalização feita pelo governo federal reservou R$ 2,3 bilhões para ações de reflorestamento, tratamento de esgoto e contenção de processos erosivos. O montante corresponde a pouco menos de 28% dos R$ 8 bilhões necessários, segundo cálculos de integrantes das câmaras consultivas do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF). O sucesso dessa ação poderia ter amenizado os efeitos da seca dos últimos três anos ao longo da bacia. Porém, desde 2008, apenas 1,7 bilhão foi investido em intervenções de recuperação ambiental pelo Ministério da Integração, segundo informações da própria pasta. O valor médio é de R$ 243 milhões por ano, considerado irrisório por ambientalistas, especialistas em hidráulica, biólogos e membros do CBHSF.
     Para Marcus Vinícius Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão, de revitalização do Rio das Velhas, um dos principais afluentes do Rio São Francisco, a prioridade claramente foi dada à transposição. “Os gastos com revitalização do São Francisco foram praticamente inexistentes”, afirma. O ambientalista destaca ainda que os recursos, além de insuficientes, vêm sendo mal empregados. “A maioria dessas ações são obras puramente sanitárias, que não respeitam critérios como os pontos mais críticos da bacia, mas sim questões políticas, como quais são os aliados políticos mais interessantes para se direcionarem os recursos.”
     Para o coordenador do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Ricardo Mota Pinto Coelho, a revitalização serviu apenas de chancela para engrenar a transposição. “Promessas como essa (de despoluir e revitalizar o Velho Chico) vêm sendo feitas nos últimos 100 anos, mas não se faz nada. O que temos visto é a drenagem das lagoas marginais, que servem de berçário aos peixes, a introdução de espécies exóticas e projetos difusos, que gastam sem eficácia.”
     O próprio presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, concorda que para o Rio São Francisco atravessar as estiagens históricas – que, segundo ele, tendem a se repetir devido às mudanças climáticas –, seria necessário investir em ações de revitalização. “O Rio São Francisco precisa de mais água. É uma situação muito grave, sobretudo em Minas Gerais, onde se concentra boa parte da produção dessa água”, disse. Há também, afirma, outras questões que precisam ser trabalhadas, como o combate ao desperdício dos usuários. “Uma medida importante, por exemplo, seria a substituição de processos de irrigação, que são ineficientes em quase todo o território. É necessário também construir mais reservatórios, para guardar água e minimizar chuvas intensas”, pontua.
     Já o Ministério da Integração considera parte do Projeto de Integração do São Francisco – que é como a pasta chama a transposição – as obras de política continuada e até intervenções de responsabilidade legal dos municípios que assinam convênios, como obras de saneamento. Esse cálculo elevaria a cifra gasta nessa área específica em cerca de R$ 34 bilhões, investidos desde 2008 em projetos que, segundo a pasta, beneficiaram a bacia do Rio São Francisco, como a construção de adutoras, canais, barragens e poços, incluindo as obras de revitalização que envolvem fornecimento de água, esgotamento sanitário, ligações intradomiciliares, controle de processos erosivos, gestão de resíduos sólidos, preservação de nascentes e matas ciliares.
     “O compromisso assumido desde 2008 pelo governo federal foi de realizar obras de infraestrutura hídrica em toda a região do semiárido, para garantir segurança na oferta de água para a população.” O investimento total na transposição, segundo o ministério, é de R$ 8,2 bilhões. “Destes, aproximadamente R$ 1 bilhão são para ações socioambientais”, informou a pasta, por meio de nota. Adicionalmente, segundo o texto, “estão em curso obras de saneamento em municípios que estão na área das bacias hidrográficas que compõem o Rio São Francisco, que vão contribuir com a preservação e a revitalização do rio, por diminuir o lançamento de esgoto e resíduos e o assoreamento de seu leito”. Essas obras estão sob responsabilidade dos ministérios das Cidades e da Saúde.


A Proposta
  • A transposição tem justificativa de garantir a segurança hídrica para 12 milhões de pessoas em 390 municípios no Nordeste Setentrional (Pernambuco, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba);
  • O custo estimado é de R$ 8,2 bilhões e o término das obras está programado para 2016;
  • A água retirada do São Francisco será injetada por meio de bombeamento em 477 quilômetros de canais e leitos de rios;
  • O empreendimento prevê a recuperação de 23 açudes e construção de 27 reservatórios, capazes fornecer 6 mil litros de água por segundo;
  • Segundo o governo federal, as obras estão em andamento e serão entregues a partir deste 
ano, com previsão de término em 2017;
  • O empreendimento apresenta, sete anos depois de iniciado com pelo menos quatro anos de atraso, 74,5% de execução física.
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